Há algo quase trágico na forma como Portugal reage às evidências mais simples. Depois das tempestades que devastaram vastas áreas da zona centro, derrubando dezenas de milhares de árvores, um especialista sobrevoa o território e aterra alarmado. Diz que é preciso agir rapidamente.
Ora, o espanto não está na constatação. Está no facto de ela precisar de um voo de avião para existir. Qualquer habitante das regiões afetadas já sabia disso. Qualquer pessoa que tenha passado alguns minutos a ver os inúmeros vídeos que circularam nas redes sociais percebeu imediatamente a dimensão do problema: encostas inteiras cobertas de árvores tombadas, florestas transformadas em autênticos armazéns de combustível para o próximo verão.
Mas então o que significa “agir rapidamente”? Na prática significa fazer o que já deveria estar a ser feito há semanas. Organizar, decidir, mobilizar. Algo que em teoria deveria ser simples: autorizar e financiar, a partir do governo central, operações locais de limpeza florestal em larga escala. Não há aqui nenhum mistério técnico. É uma operação logística.
- Camiões.
- Empilhadores de madeira.
- Motosserras.
- Equipas de trabalhadores - muitos deles, inevitavelmente, imigrantes, como já acontece em tantas tarefas agrícolas e florestais.
E depois organização: zonas de armazenamento de madeira devidamente definidas, áreas protegidas, acessos preparados. Apoios logísticos para as equipas - incluindo habitações provisórias em contentores nas zonas mais remotas onde a limpeza terá de ser feita. Nada disto é extraordinário. Tudo isto é banal em qualquer país que saiba gerir o seu território.
O que torna a tarefa difícil não é a técnica. É a falta de decisão. Porque a verdade é que estamos perante uma operação grande, mas perfeitamente executável. Admitindo um cenário moderado - dois milhões de árvores derrubadas pelas tempestades - estaríamos a falar de cerca de oitocentos mil metros cúbicos de madeira espalhados pelo território.
Para remover esse volume em três meses (antes da época dos incêndios) seriam necessárias cerca de trinta mil viagens de camião. Distribuídas por noventa dias, isso significa aproximadamente trezentas e trinta viagens diárias. Se cada camião fizer duas viagens por dia, bastariam cerca de cento e sessenta camiões a trabalhar de forma contínua.
No terreno, equipas de três trabalhadores com motosserras conseguem cortar e preparar cerca de cento e sessenta a duzentas árvores por dia. Para limpar dois milhões de árvores em três meses seriam necessárias cerca de cento e vinte equipas de trabalho permanentes - algo como trezentos e cinquenta a quatrocentos trabalhadores. Em termos simples, a operação implicaria algo desta ordem de grandeza:
- cerca de 120 equipas de corte,
- aproximadamente 400 trabalhadores,
- cerca de 250 motosserras,
- cerca de 160 camiões em operação diária,
- e cerca de 30 mil viagens de transporte de madeira.
Grande? Sim. Impossível? Nem de perto. A questão é que operações deste tipo exigem algo raro em Portugal: comando. Alguém tem de decidir, mobilizar recursos e coordenar o trabalho entre autarquias, empresas florestais e administração central.
No topo dessa cadeia estão dois ministérios: Agricultura e Administração Interna. Para o novo ministro da Administração Interna, isto poderia ser uma oportunidade perfeita para mostrar capacidade de liderança logo no início do mandato. Cerca de doze dias depois de tomar posse, é provável que ainda esteja a arrumar a secretária herdada da antiga ministra - que certamente não a terá deixado particularmente organizada. Entretanto, já se sabe que foram definidas prioridades estratégicas. Entre elas, naturalmente, a prevenção de incêndios. Ora aqui está a primeira grande medida concreta.
Antes de aviões, antes de planos de emergência, antes das inevitáveis conferências de imprensa de agosto. Limpar as árvores. Porque neste momento o país tem madeira a mais. E, infelizmente, camionetas mentais a menos.
João Gomes
Data: 8-03-2026
A nossa nota:
Não descortinamos as credenciais que confiram credibilidade ao enunciado de toda a logística necessária e subjacente, com os timigs e os recursos necessários; mas ainda assim, tem garra, sim Senhor!
Fontes/Links:
ΦΦΦ

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